A era imperial (1557-1796)

A Dinastia de Avis – a era Imperial
16. D. Sebastião, o Desejado (1557
-1630)Neto de D. João III e filho do príncipe herdeiro D. João e sua mulher D. Joana, nasceu em 1554, algumas semanas depois da morte de seu pai. Quando seu avô morreu (1557), tinha três anos e meio. A rainha viúva, D. Catarina exerceu a regência até 1568, quando D. Sebastião foi declarado maior.
O início de seu reinado foi marcado por uma enorme expansão das possessões portuguesas na Índia. A destruição do império hindu de Vijayanagara por uma coligação de sultões muçulmanos xiitas da dinastia Bahamani em 1565, na batalha de Tallikota, junto com o ameaçador expansionismo do imperador mogol sunita Akbar, que conquistou Gujarate e Bengala nos anos seguintes,levou ao desespero os príncipes hindus remanescentes e as elites brâmanes, que pediram socorro ao governador de Goa, oferecendo em troca a aceitação da suserania portuguesa. D. Sebastião aceitou e, à frente de um grande exército hindu , submeteu os reinos muçulmanos do sul da Índia, conquistou o Decã e o Gujarate e repeliu o grão-mogol para o norte da Índia. Todo o sul da Índia, mais o Gujarate e a região de Bombaim foram unificados em um grande reino hindu-português, cuja capital foi transferida de Goa para a reconstruída Vijayanagara (chamada de Bisnaga pelos portugueses).
De resto, a regência de D. Catarina e o início do reinado de D. Sebastião foram uma continuação das políticas do avô. A corte portuguesa continuou atraindo alguns dos mais importantes sábios da época, incluindo o cirurgião francês Ambrósio Paré e dando refúgio a vítimas da intolerância religiosa, como Giordano Bruno.
A idade de ouro portuguesa seria um dia lembrada como o ponto culminante do Renascimento, mas atraiu a inveja dos demais reinos europeus. Em 1590 França, Áustria e Espanha atendem ao apelo da quarta sessão do Concílio de Trento por uma cruzada contra os relapsos portugueses e os protestantes do norte da Europa, em troca da promessa de partilha de suas riquezas e colônias, principalmente o próspero vice-reino da Índia.
Portugal domina os mares, mas como seu pequeno exército de terra dificilmente poderia resistir às forças reunidas dos reis católicos, um experiente e realista D. Sebastião organiza uma colossal evacuação em massa. Protegida pela maior e mais moderna esquadra do mundo, a corte portuguesa, junto com grandes mercadores e seus protegidos, refugia-se na jovem capital da florescente colônia do Brasil.
Portugal é invadido, mas em Salvador a dinastia de Avis celebra com os refugiados um novo pacto, proclamando o novo Império Unido de Portugal, Brasil e Algarves e, pela primeira vez no Ocidente, a total liberdade de culto. Parcela expressiva da Igreja luso-brasileira, incluindo um importante grupo de jesuítas dissidentes, rompe com Roma e apóia o Imperador. Aliada a rabinos sefaraditas, funda a Igreja Ecumênica do Divino Espírito Santo, chamada sebastianista por seus adversários, os papistas. Os domínios brasileiros do novo Império são organizados em quatro grandes vice-reinos: Grão-Pará (Amazônia), com capital em Belém; Santa Cruz (Nordeste), com capital em Salvador; Pindorama (Sudeste), com capital no Rio de Janeiro; e Paraná (Sul e Centro-Oeste), com capital em Bons Ares. O vice-reino da Índia também é subdividido, dando origem aos novos vice-reinos da Malásia e da Pérsia e Arábia.
Protegidos pelo Imperador, os judeus estabelecidos em Salvador fundam em 1615 uma universidade hebraica, onde brilha o filósofo Uriel da Costa. A nova instituição divide com a Universidade Imperial de Salvador a liderança do movimento racionalista que a história viria reconhecer como o Iluminismo Baiano.
Carente de homens e necessitando garantir as costas americanas contra piratas e eventuais invasores, Sebastião I assina duradouras alianças com o inca Túpac Amaru e o tlatoani Cuautémoc e empreende um grande esforço para assimilar pacificamente os nativos. O chanceler Fernão Moro – fascinado pelas idéias de seu avô Tomás Moro – concebe um grandioso plano para civilizar tupis e guaranis, que sob o lema "morrer se preciso for, matar um indígena nunca!" é implementado por ex-jesuítas que, em colaboração com sertanistas como Brás Cubas e João Ramalho, partem de Piratininga e do Maranhão para fundar missões ao longo das bacias do Paraná, Paraguai e Amazonas, onde oferecem aos tupis os benefícios da civilização lusa, mas os alfabetizam em sua própria língua e os educando no trabalho regular, na cooperação e no desprezo pelo luxo.
Sertanistas descobrem enormes jazidas de ouro e ferro nas serras de Sabará e dos Carajás (que passam a ser conhecidas como Minas Gerais do Sul e do Norte) e a serviço dos aliados incas e méxicas, descobrem imensas jazidas de prata em seus domínios. A abundância de metais preciosos provoca uma forte inflação nos domínios portugueses, mas também abre o caminho para um rápido crescimento da economia. D. Sebastião manda cunhar com o ouro das Minas Gerais uma nova moeda com o valor de 1.000 réis, que por ter como marca a constelação do Cruzeiro do Sul, passa a ser conhecida como cruzeiro.
A fabulosa riqueza acelera o rearmamento do Império e estimula o desenvolvimento da manufatura nas industriosas missões tupi-guaranis que, através da intermediação dos mercadores portugueses, importam metais dos novos centros mineiros, açúcar e algodão das plantações da Bahia e de Pernambuco e lã de alpaca e cereais dos Andes, enquanto exportam artesanato, armas, tecidos, bebidas e conservas para mineiros do norte e do sul e para as opulentas cortes de Salvador, Cusco e Tenochtítlan.
A guerra prossegue na Europa e a Santa Aliança colhe importantes vitórias. Em vez de enfrentar a marinha portuguesa ocupada com a evacuação, a "Invencível Armada" franco-espanhola havia desembarcado para depor Elizabeth I. Sobe ao trono sua prisioneira escocesa, a católica Mary Stuart, mas ela esgota os recursos do reino combatendo Portugal e as rebeliões protestantes e assim acaba abortando a incipiente expansão do império colonial inglês e o desenvolvimento de suas manufaturas.
Pouco depois, com apoio francês, os austríacos obtêm vitória decisiva sobre os prussianos e anexam os ducados protestantes do norte da Alemanha, fazendo do Sacro Império Romano-Germânico uma poderosa realidade política e encurralando os protestantes no extremo norte da Europa, onde resistem sob a liderança de um brilhante estrategista, o rei sueco Gustavo Adolfo. Porém, a Aliança não consegue arranhar a hegemonia portuguesa no ultramar, nem obter uma vitória definitiva no continente, pois em Portugal e na Holanda uma intrépida resistência sebastianista popular é alimentada por ouro e suprimentos sul-americanos. Continua a carreira de William Shakespeare, mas infelizmente, com a Inglaterra relegada a papel menor no sistema europeu, sua fama não ultrapassa os limites acanhados de seu país e língua provincianos, sendo ofuscada pela do baiano Gregório de Matos.
Em 1601, o tupi é reconhecido como língua oficial ao lado do português e o imperador Sebastião passa a assinar seus decretos como Imperador dos portugueses e Caraiguaçu dos brasileiros, ostentando com o mesmo orgulho a coroa imperial e a akangatara (cocar) indígena.
Com a morte de Mary Stuart em 1603, o parlamento inglês, dominado pelo partido católico, decide deserdar o herdeiro protestante e entregar a coroa ao rei francês, o jovem Luís XIII. Surge o Reino Unido da França, Inglaterra e Irlanda, iniciando o processo de unificação dos reinos da Europa. Com a ajuda do chanceler Fernão Moro, o filósofo protestante inglês Francisco Bacon, que havia se envolvido numa conspiração contra os franceses, foge a uma condenação à morte para assumir a cátedra de filosofia natural na Universidade Imperial de Salvador e fundar a Imperial Academia de Ciências. Thomas Hobbes, porém, opta pela corte da Suécia protestante.
17. D. João IV,
o Pacífico (1630-1656)Filho de D. Sebastião e D. Inês, nasceu em Salvador, em 1604. Contrariando a nobreza, julga prematuros e perigosos suas propostas de conquistar a Europa e recusa-se a comprometer seus recursos com uma grande guerra européia, preferindo investir na consolidação dos vice-reinos brasileiros e na implantação de colônias na África e Ásia. Limita-se a continuar a apoiar a resistência à Santa Aliança em Portugal – já quase totalmente reconquistado aos invasores, mas ainda sujeito a ataques intermitentes – e nos redutos protestantes da Holanda, Escócia e Suécia.
Vários pensadores importantes ameaçados pela intolerância religiosa européia conseguem asilar-se junto à corte de Salvador, sendo incorporados à Universidade Imperial: entre eles, o pisano Galileu Galilei e os franceses Renato Descartes e Brás Pascal, cuja íntima colaboração resulta na descoberta da gravitação universal e do cálculo diferencial. Coloca-se também a serviço de Sua Majestade Imperial o mosqueteiro francês Cyrano de Bergerac, que tem um importante papel na reorganização da Guarda Imperial.
A partir de 1640, a Igreja Ecumênica sebastianista passa a ser liderada pelo novo bispo de Salvador, D. Antônio Vieira. Durante seu longo episcopado, que durará até 1704, a ética, a estrutura e a teologia da nova religião tomam sua forma definitiva.
Em 1644, os chineses, invadidos por bárbaros, pedem socorro aos japoneses, que destroçam facilmente os arqueiros manchus com suas mocabas (mosquetes) e mocabuçus (canhões) importadas das fundições tupi-guaranis. Os mandarins, agradecidos, proclamam que o Mandato do Céu caiu sobre a dinastia Yamato, que permanece em Quioto mas envia o xógum (em chinês, taiku) Tokugawa Ieyasu para reger o império sino-japonês em Pequim, que a partir de passa a ser conhecida como Chukyo.
Acontecimento ainda mais importante ocorre em Sabará, onde o engenheiro de minas Tibiriçá Tamoio e seu jovem aprendiz Manuel Borba Gato constróem em 1649 uma máquina a vapor, invenção que vai rapidamente se difundir pelas cooperativas tupi-guaranis e desencadeia a Revolução Industrial.
18. D. Afonso VI, o Vitorioso (1656-
1706)Filho de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão, nasceu em Salvador, em 1643. Quando faleceu seu pai, tinha apenas treze anos e até à sua maioridade exerceu a regência a rainha viúva. Ao subir ao trono, tomou para seu chanceler o conde de Castelo Melhor, depois duque de Bons Ares (Luís de Vasconcelos e Sousa, 1636-1720), que se revelou estadista eminente e um extraordinário organizador.
No início de seu reinado, os mercadores Raposo Tavares e Fernão Dias Pais, a serviço da Cooperativa Agroindustrial de Piratininga, descobrem como instalar máquinas a vapor em navios fluviais, fundam uma companhia de navegação e convencem o governo imperial a construir canais que interligam os grandes rios do continente e permitem cruzar os rios do continente do Prata ao Orenoco. Araribóia Tupiniquim constrói a primeira locomotiva e pouco depois a primeira estrada de ferro une Piratininga ao porto de Santos, logo sucedida por outras que complementam a rede hidroviária e estendem rotas comerciais aos domínios incas e méxicas.
No campo intelectual, impera em Salvador o filósofo Bento Espinosa (1632-1705). A influência de sua Ética à maneira geométrica e de seu Tratado Teológico-Político transcendem os círculos judaicos e têm um enorme impacto sobre o pensamento da brilhante intelectualidade tropical, daí em diante fascinada pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Como reitor, radicaliza a política de tolerância e ecumenismo proclamada pela dinastia de Avis, abrindo as portas da Universidade Hebraica e o acesso às suas catedras a todas as raças e todas as religiões.
Suas idéias, adaptadas e filtradas pela elaboração teológica da sincrética e progressista igreja liderada por D. Antônio Vieira, alcançam as massas indígenas e mestiças, entre as quais a escravidão começa a ser seriamente questionada. O parlamento imperial é pressionado a promulgar leis garantindo aos escravos o direito de comprar a própria liberdade e a alforria automática dos que fossem vítimas de excessos ou se oferecessem como voluntários para lutar no Exército ou na Armada.
A Universidade Imperial destaca-se no campo das ciências naturais e exatas, lançando as bases das ciências biológicas. A física recebe um grande impulso de outro herege europeu que busca asilo no Brasil, Isaac Newton, que formula as leis da termodinâmica. Uma terceira grande Universidade surge em Piratininga, tendo como seu núcleo os cursos de engenharia e medicina.
A invasão da Europa é finalmente empreeendida em 1670, quando o almirante Domingos Calabar esmaga com facilidade a "Invencível Armada", pois os desajeitados galeões franceses e espanhóis não são mais páreo para as modernas, velozes e manobráveis fragatas portuguesas. Seus navios desembarcam na Península Ibérica dezenas de milhares de guerreiros brasileiros, incas e méxicas.
Com a morte em batalha do general Domingos Jorge Velho, seu imediato Ganga Zumba assume o comando das forças de terra e obtém em Bragança uma vitória decisiva sobre a Santa Aliança, cujo negociador, o cardeal Mazarino, aceita não só a paz com Portugal, Holanda e Suécia, como aceita entregar as colônias franco-inglesas da América do Norte aos holandeses, cujo país é ampliado pela incorporação de territórios alemães e passa a se estender de Dunkirk a Lübeck. Também aceita a entrega da maior parte de Castela aos portugueses, incas e méxicas. Madri passa a se chamar Caxtlitítlan e um templo do Sol é erguido sobre as ruínas da catedral de Sevilha, mas os portugueses, contentes por disporem de aliados fiéis entre eles e os rancorosos reis europeus, fecham os olhos a tais excessos.
Assegurada a tranqüilidade dos portugueses na Ibéria, o exército luso-brasileiro é em seguida desembarcado no Marrocos. O país é rapidamente conquistado e transformado em vice-reino português, como havia pretendido Afonso V, o Africano, um século antes. Os tempos, porém, mudaram: o objetivo de D. Afonso VI não é converter os mouros ao cristianismo e sim consolidar o controle imperial sobre a entrada do Mediterrâneo e abrir o caminho para a conquista de toda a África. A pedra fundamental de sua política para o Marrocos é a tolerância religiosa sem restrições e o modelo de Afonso VI será a convivência entre cristãos, muçulmanos e judeus no antigo Califado de Córdoba.
A essa altura, o poder em Salvador pertence a uma geração que não conheceu Lisboa e cujos poderosos interesses estão ligados à avalanche de riquezas mineiras, agrícolas e industriais que jorram do continente americano. Em vez de voltar a uma Europa depredada por décadas de guerra, a corte limita-se a nomear um vice-rei para Portugal (o Marquês de Montalvão) e enviar os recursos necessários para reconstruir e industrializar o pequeno país, agora ampliado pela anexação de terras outrora espanholas, incluindo a Galiza, as Canárias, Gibraltar e uma parte da Extremadura. Os portugueses, apesar de um pouco frustrados, acabam dando-se por satisfeitos com a volta da prosperidade e o papel de cabeça-de-ponte européia de um império onde o sol nunca se põe.
O brilho do general negro impulsiona a causa abolicionista, que inquieta cada vez mais as metrópoles do nordeste brasileiro. Tanto para fugir das agitações populares como para ficar mais perto do novo centro de gravidade econômico do Império, a corte planeja fundar uma nova capital, Brasília, no Planalto dos Goiases, viabilizada pelas novas ferrovias e canais fluviais que começam a tornar o interior muito mais facilmente acessível.
Porém, isso não impede que o movimento de desobediência civil encabeçado pelo líder negro Zumbi, apoiado pelo poder econômico das cooperativas tupi-guaranis (que desejam substituir a mão-de-obra escrava não só por razões éticas, mas também para ampliar o mercado para suas novas máquinas) organize uma série de greves e fugas em massa e funde em Palmares uma grande cooperativa organizada em moldes semelhantes ao das indígenas, que nas décadas seguintes serviria de modelo para muitas outras cooperativas afro-brasileiras que surgem por todo o Nordeste, ao longo da bacia do São Francisco e nas Minas Gerais do Sul e do Norte. A Igreja Ecumênica, inicialmente dividida sobre a questão, decide na Conferência de 1686, após brilhante e inspirado sermão de D. Antônio Vieira, colocar-se totalmente do lado dos escravos rebelados e encabeçar a campanha abolicionista nas cidades.
Em 1695, a aristocracia é obrigada a capitular e abolir totalmente a escravidão e o tráfico de escravos em todos os domínios imperiais.
Um novo modelo econômico se consolida: enquanto o governo imperial implanta a infra-estrutura, planeja o desenvolvimento e provê saúde e educação, a produção agrícola, industrial e mineira é executada pelas poderosas cooperativas tupi-guaranis e afro-brasileiras (estas geralmente chamadas de quilombos), a cujo serviço se engajam os trabalhadores da Europa, Ásia e África atraídos para o Brasil por suas excelentes condições de vida e trabalho – embora os mais agressivos e aventurosos prefiram se arriscar nas companhias capitalistas de comércio e navegação tocadas por descendentes de portugueses e marranos, que vendem seus latifúndios às cooperativas para obter mais capitais para suas atividades. Cidades como Piratininga, Paraguai, Guaíra, Sabará, Palmares e Carajás tornam-se os maiores centros industriais do mundo; Bons Ares, Santos, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Maranhão e Belém estão entre os portos mais movimentados do planeta.
Em 1700, Carlos II da Espanha morre sem deixar descendentes e lega o que restava de seu país (Aragão e Navarra) a Luís XIV da França, cujo reino passa a se estender da Irlanda às Baleares.
19. D. João V,
o Construtor (1706-1750)Filho de D. Afonso VI e D. Teresa, nasceu em Salvador, em 1689. Investe as incalculáveis riquezas decorrentes das conquistas e da industrialização e do comércio na construção de ferrovias, estradas, aquedutos, academias e arsenais, não só no Brasil e em Portugal, como também na Índia e África, cujo interior é pela primeira vez explorado e em boa parte conquistado. O combate à escravidão é um dos pretextos para essas conquistas, que resultam no fechamento quase total do tráfico negreiro em todo o mundo. Por algum tempo, os holandeses continuam exportando escravos de sua colônia em Madagáscar para suas outras colônias, mas tendo seus navios freqüentemente interceptados e percebendo que a intransigência do Império e da opinião pública brasileira sobre esse assunto poderia levar a uma guerra de grandes proporções, resolvem suspender voluntariamente esse tráfego. Entretanto, os senhores de escravos holandeses das colônias algodoeiras da Colômbia do Norte prolongam a existência da escravidão reproduzindo e criando escravos em seus próprios domínios.
Ordena também a fundação de várias novas cidades e entre as realizações mais notáveis do início do seu reinado está a fundação de Brasília, para a qual se transfere a corte. Salvador continua sendo a capital cultural e financeira do Império e do mundo, embora Piratininga já a ultrapasse em população e produção industrial. É promulgada em 1708 a primeira Constituição do Império, estabelecendo o direito de voto para todos os cidadãos alfabetizados do sexo masculino, as atribuições dos quatro poderes, a autonomia dos vice-reinos e municípios e os fundamentos dos direitos individuais e coletivos dos súditos do Império e a regulamentação jurídica e os direitos de propriedade das cooperativas, dos quilombos, das companhias comerciais e imperiais.
Também é criado, por inspiração de Isaac Newton, o sistema métrico decimal, cujo uso rapidamente se difunde em todo o Império. Newton também é encarregado pelo Imperador de reorganizar o sistema monetário e bancário do Império, que passa a ser regulado pelo Banco Imperial do Brasil.
O português se torna língua universal da literatura, da ciência, do direito, da filosofia e do comércio. O francês Dinis Diderot, que vem estudar na prestigiosa Universidade Espinosa – nome que toma a Universidade Hebraica após a morte de seu mais brilhante mestre e reitor -, chega a escrever que neste século só é possível filosofar em português, no prefácio da Enciclopédia Brasileira, que condensava todo o já vasto conhecimento da época.
O tupi, porém, se torna a língua da indústria e da tecnologia: circulam por todo o mundo termos como mboitatá (composição ferroviária), itaetetapé (estrada de ferro) e igatatá (navio a vapor), logo seguidos pelo camburuçu (telégrafo), pelo itajerecauim (motor a álcool) e pelo uiraguaçu (balão dirigível), que decola pela primeira vez em 1709 do pátio da Politécnica de Piratininga, fruto da cooperação do físico Bartolomeu de Gusmão e do engenheiro Aimberê Tupiniquim, neto do inventor da locomotiva. Começa a surgir um movimento feminista e as portas do ensino superior e mesmo das academias militares começam a se abrir para as mulheres.
Muito mais importante para os povos do Império, porém, são as descobertas no campo da medicina. A partir de 1700, difunde-se o uso da anestesia e da assepsia, tornando as cirurgias relativamente seguras. Em 1715, o brasileiro Dr. Guaixara Maracajá descobre que doenças e infecções estão associados a bactérias; nos anos seguintes inventa a primeira vacina e desvenda o papel dos mosquitos e de outros insetos na transmissão de doenças parasitárias. Nas décadas seguintes, as condições sanitárias do Império são enormemente melhoradas com a difusão do saneamento público e o combate aos mosquitos. Em 1736, o Dr. Irecê Kaingang cria o primeiro soro antiofídico. A função das vitaminas também começa a ser compreendida e em 1745 a descoberta dos tipos sangüíneos torna seguras as transfusões de sangue.
Em 1746, a Dra. Na Balam Chan Chel, cientista de origem maia nascida no Império Méxica, mas criada em Pindorama e naturalizada súdita do Império Luso-Brasileiro, desenvolve, a partir de pesquisas sobre a medicina tradicional de seu povo, a penicilina e a pílula anticoncepcional, logo seguida pela estreptomicina, descoberta pelo seu discípulo quéchua, Dr. Amaru Mamani, em fungos do solo andino.
A Faculdade de Medicina de Piratininga inicia em poucos anos a industrialização dessas descobertas, que causam um enorme impacto na economia e na demografia, ao produzir uma queda dramática nos índices de mortalidade e ao mesmo tempo oferecer o meio para conter a explosão demográfica. O impacto cultural também é considerável: a difusão dessas descobertas revolucionárias, junto com a popularização do preservativo de látex (camisinha), tornam ainda mais desembaraçada a já tradicionalmente indulgente moral sexual luso-brasileira, ampliando um abismo já considerável em relação ao puritanismo que prevalecia na Europa e nas colônias holandesas.
Os choques culturais resultantes dessas profundas mudanças sociais e políticas geram uma reação romântica no campo das artes. Artistas e poetas fogem para uma Idade Média idealizada de cavaleiros andantes e feiticeiros, ou então para o mundo dos indígenas indomáveis do Brasil pré-colombiano ou da África dos orixás nagôs.
Na Europa, o rei Luís XV da França desposa em 1736 a herdeira do trono do Sacro Império, Maria Teresa de Áustria. Com a morte do imperador Carlos VI em 1740, a maior parte da Europa é unificada sob o cetro do casal imperial, num estado conhecido com o nome de Sacro Império Romano da nação Francesa.
A última das grandes obras do reinado de D. João V é o canal do Panamá, que inaugura em 1749.
20.
D. Pedro II, o Sábio (1750-1786)Filho de D. João V e D. Mariana, nasceu em Brasília, em 1717. Fascinado pela ciência desde a juventude, antes de subir ao trono gradua-se com louvor em ciências naturais e chega a descobrir e classificar várias espécies de insetos do Cerrado. Embora delegue grande parte de suas responsabilidades ao chanceler Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1787) – conde de Oeiras, marquês de Pombal e, depois, duque de Porto Seguro – faz questão de se envolver pessoalmente nas questões relativas à educação e ao progresso da ciência, da medicina, das artes e da tecnologia. Promove campanhas de alfabetização na África e Ásia, onde implanta redes de escolas e postos de saúde. O ensino primário se torna gratuito e obrigatório. Sua vasta ilustração conquista a estima e admiração dos homens de ciência de todo o mundo.
Particularmente interessado na biologia, D. Pedro II patrocina expedições para recolher e estudar espécimes por todo o mundo. A cientista goiana Potira Guaianá – que segundo insistentes boatos seria amante de Pedro II -, cria a ecologia. O cientista baiano Carlos Roberto Zambi de Deus participa de uma viagem particularmente frutífera que dá a volta ao mundo, passando pelas ilhas Champi (Galápagos), pela Nova Holanda, pelas Mascarenhas e por Madagáscar e, na volta, lança as bases da teoria da evolução.
Em 1756, o poeta Cláudio Manoel da Costa funda em Salvador uma academia literária denominada Jônia Brasileira, visando combater o decadente romantismo com um novo e lúcido racionalismo modernista, fundado nos ideais estéticos e filosóficos dos filósofos e poetas atenienses e da antiga Jônia.
Em 1763, a czarina Catarina II celebra uma aliança com Luís XV. Os impérios francês e russo, agora aliados, conquistam, dividem e anexam o Império Otomano em 1766 e a Polônia em 1772. A Palestina é transformada num condomínio entre os dois imperadores, que também promovem a reunificação da Igreja Católica Romana com a Igreja Ortodoxa. O último sultão otomano foge para Meca e é obrigado a abdicar do califado em favor do imame Muhammad bin Abdul Wahhab, líder da seita fundamentalista wahabita. O novo califa proclama a Jihad (guerra santa) e organiza a resistência dos povos islâmicos contra o domínio europeu. O Califado Wahabita controla o coração da península arábica, a maior parte do Saara e as montanhas do Curdistão e do Afeganistão e também organiza constantes rebeliões nas cidades muçulmanas conquistadas pelos russos e pelos franceses.
O marquês de Pombal implanta, em parceria com as cooperativas, os quilombos, os sindicatos operários e as companhias privadas, uma ampla rede de assistência médica e previdência social. Ao mesmo tempo, preocupado com a ascensão do poderio militar dos holandeses e dos impérios europeus, promove uma drástica modernização das forças armadas e, principalmente, da Armada. As naus e fragatas são substituídas por couraçados e cruzadores a vapor, abastecidos por petróleo extraído do recôncavo baiano e, depois, também das ilimitadas reservas do vice-reino da Pérsia e Arábia. Mais uma vez, a marinha luso-brasileira avança décadas à frente das suas rivais e, como se não bastasse, constrói os primeiros piraguaçus (submarinos) e experimenta com o uso dos uiraguaçus em missões de reconhecimento e bombardeio.
Na década de 1770, surge também o nheembaé (telefone). O primeiro serviço comercial é inaugurado em Piratininga por D. Pedro II e logo em seguida é estendido a Salvador e Brasília. A maioria das grandes cidades usa gás canalizado (produzido por fermentação, de reservas naturais ou a partir de carvão) na iluminação, na cozinha e em aquecimento de caldeiras. O puhãembaé (gramofone) e a endycuatiara (fotografia) tornan-se as febres do momento e revolucionam a música popular e as artes gráficas.
Os transportes civis também fazem amplo uso das novas tecnologias. Navios a vapor com cascos de ferro, cada vez maiores, substituem os veleiros na maior parte das rotas marítimas. Em meados do século, uiraguaçus brasileiros – chamados pelos portugueses de passarolas – ligam Brasília a Lisboa, Cusco, Chukyo, Tenochtítlan, Nova Amsterdã e Viena e fazem a volta ao mundo em inacreditáveis quinze dias, passando pelas colônias asiáticas e africanas do Império. Os serviços de tupãjeré (bonde elétrico) começam a operar em Piratininga em 1775 e em Salvador em 1779; a maioria das grandes cidades do Império já possui bondes puxados a cavalo; serviços de bombeiros, hospitais, policiais e alguns nobres ricos usam veículos a vapor, a álcool ou, mais raramente, a itacauim (gasolina) ou itauguí (diesel), chamados moá (caminhões) e moamirim (automóveis).
21.
D. João VI, o Arrogante (1786-1796)Filho de D. Pedro II e D. Maria, nasceu em Brasília, em 1755. Romântico, exaltado, quase fanático, sonha desde a juventude não só com a restauração de seu poder absoluto da casa de Avis, reduzida a um papel quase cerimonial sob seus predecessores João V e Pedro II, como também com a conquista e submissão de todos os povos da Terra à sua coroa. Fisicamente robusto, sedutor, bom atirador e espadachim, menospreza os interesses intelectuais do pai e conspira com alguns nobres passadistas.
A partir de sua coroação em 1786, tenta implantar o serviço militar obrigatório e tenta mobilizar o Império para uma guerra de conquista contra o Califado, dando início a um período de crescentes atritos entre a monarquia e o povo que rapidamente dilapida o capital de simpatia popular que sua dinastia havia acumulado em duzentos anos. Cresce rapidamente a popularidade do Partido Republicano. Em 1796, sentindo o poder escapar de suas mãos, o Imperador tenta dissolver o parlamento, provocando incontrolável revolta popular. O marechal Joaquim José da Silva Xavier o convence a abdicar e proclama a República Federativa do Brasil.